Valor Econômico
13 de Dezembro, 2011
José Policena Rosa, de 60 anos, conta que desde que tinha 18 preparou-se para a chegada de uma gigante mineradora como a Anglo American ao município de Barro Alto, a cerca de 200 quilômetros de Goiânia. "Não fosse ela, teria sido outra", afirma. Durante esse tempo, o torneiro mecânico perdeu as contas de quantas empresas estiveram ali antes da multinacional inglesa para sondar a área. "Nunca perdi as esperanças." Rosa deixou a família na zona rural de Pirenópolis, há 42 anos, atrás da promessa de desenvolvimento proporcionado pela exploração das jazidas de níquel e de bauxita. Ele havia concluído o curso técnico, incentivado pelo mais velho de seus 10 irmãos. "Pena o Augusto não estar entre nós para ver o sonho finalmente se realizar."
De fato, a prosperidade promovida pela mineração começa a mudar a vida dos mais de oito mil habitantes da cidade, cuja arrecadação saltou de R$ 700 mil para quase R$ 2 milhões anuais. Um indicador dessa transformação pode ser mensurado pelos cinco hotéis agora espalhados pelo distrito de Barro Alto. Embora modestos, os estabelecimentos abrigaram uma população flutuante de mais duas mil pessoas durante o pico de construção da planta industrial da unidade de negócios de níquel da Anglo American, recém-inaugurada, um projeto de US$ 1,9 bilhão - o maior investimento de todo o Estado de Goiás - com geração de 800 empregos diretos. "Os moradores começaram a acreditar num futuro melhor e a cidade virou um canteiro de obras", conta Zé Torneiro, como é conhecido. Ele próprio investiu R$ 200 mil na ampliação e reforma da oficina, que agora emprega três funcionários.
A autoestima do povo e a melhor qualidade de vida também são destacadas pelo prefeito Antônio Luciana Batista de Lucena (DEM), em seu segundo mandato. "Barro Alto é a quinta cidade que mais cresceu no último censo", diz. Na avaliação de Lucena, um novo ciclo começa. "Os recursos trazidos vão fomentar a economia e promover uma expansão adequada para outros projetos de mineração, agora de bauxita."
Isso envolve, entre outras coisas, a qualificação profissional da mão de obra. E umas das conquistas já visíveis é o Núcleo Integrado Sesi/Senai, resultado de uma parceria com a prefeitura e a Federação das Indústrias do Estado de Goiás - Sistema Fieg. Coube à Anglo American destinar R$ 1 milhão para a construção do prédio num terreno doado pela administração municipal. Lá são mantidos cursos gratuitos de inclusão digital, programas de educação de jovens e de educação a distância, além de treinamento para formação esportiva. "Todas as atividades são profissionalizantes e capazes de gerar renda", diz o prefeito.
O investimento é apenas uma parcela dos R$ 10 milhões que a mineradora reverteu ao município como contrapartida à redução de 1,5% da alíquota de 3,5% do Imposto Sobre Arrecadação de Qualquer Natureza (ISSQN). Outros R$ 3 milhões foram destinados diretamente aos cofres públicos municipais. E os R$ 6 milhões restantes, repassados em diversas obras e projetos sociais para o benefício da população, mediante conselho deliberativo. Todo o recurso é gerido pela Fundação de Desenvolvimento Social e Econômico de Barro Alto (Fundesba). Entre as iniciativas está um desejo muito especial da comunidade: uma maternidade, prestes a ser inaugurada juntamente com o hospital municipal.
A infraestrutura básica não é a única beneficiada - a cidade é a primeira de Goiás a contar com Plano Diretor e de Saneamento. Parcerias com ONGs, como a Reprolatina, a Care Brasil e a Agenda Pública, começam a valorizar produtos regionais, promover o associativismo, o cooperativismo e a governança democrática, além da promoção da saúde sexual e reprodutiva, conforme explica o coordenador de relacionamento com as comunidades da Anglo em Barro Alto e em Niquelândia, Liomar da Silva Rocha Vidal. "O comprometimento com a sustentabilidade socioambiental leva a empresa a fazer o papel do Estado em muitas situações", avalia. "Nossa preocupação é preparar a comunidade para que possa caminhar com as próprias pernas no tempo de encerrar as atividades, daqui a 30 anos."
Para explorar as potencialidades locais, porém, é preciso estruturar políticas públicas de longo prazo. "Faltam gestores de projetos para tantos recursos", afirma Vidal. A análise tem fundamento. Com a arrecadação crescente - em três anos somente o ISSQN rendeu R$ 24 milhões aos cofres da prefeitura -, está difícil para a comunidade organizar-se de maneira adequada. Um exemplo é a Orquestra Cidades - Camerata de Violões de Barro Alto. Respaldado pela Lei Rouanet, o projeto é conduzido pela Associação dos Amigos da Cultura (Casa da Cultura) e oferece formação musical para crianças e adolescentes. Com R$ 600 mil em caixa, até agora só consumiu R$ 420 mil, mesmo com a demanda em expansão.
Não é diferente nos demais setores, segundo a presidente da Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Barro Alto (Aciaba), Tânia Gomes de Jesus. "É preciso mudar a cultura local", afirma. "A classe empresarial ficou parada no tempo e não se preparou suficientemente para acompanhar as transformações em curso."
Para ingressar na dinâmica econômica que se estrutura é necessário sair da informalidade, garantir qualidade e continuidade no fornecimento. Mas, no geral, comerciantes como Ronaldo Correa do Carmo, que emprega 13 pessoas em quatro estabelecimentos, ainda se ressentem da falta de uma estratégia ambiental que evite o crescimento desordenado. "Todo esse movimento provocado pela inauguração da mina poderia ser desviado para dentro da cidade", acredita ele.
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