Valor Econômico
12 de Dezembro, 2011
No ano passado, mais de 113 mil pessoas foram diagnosticadas com câncer de pele do tipo não melanoma no Brasil. Trata-se do tumor de maior frequência no país, atingindo 25% dos casos registrados. Apesar de ser um câncer de baixa mortalidade quando detectado precocemente, muitos pacientes ficam sem terapia ou precisam esperar meses, às vezes até um ano, para serem tratados. O que, no caso de tumores malignos, pode fazer toda a diferença.
O tratamento tradicional exige cirurgia, anestesia geral, internação e cuidados subsequentes, além de recursos nem sempre disponíveis no sistema publico de saúde nacional. Porém, se o programa "Terapia Fotodinâmica Brasil" chegar a termo como esperado, o tratamento será simplificado e barateado, e deve estar disponível em 100 centros médicos espalhados pelo país até o fim de 2012.
A terapia, desenvolvida em conjunto pelo Instituto de Física do campus de São Carlos (IFSC) da USP (Universidade de São Paulo), pelo Hospital Amaral Carvalho e pelas empresas MM Optics e PDT Pharma, dispensa a cirurgia. Ao invés de bisturis, são utilizados um equipamento de fluorescência óptica e um medicamento, que usados em conjunto funcionam como uma espécie de fotoquimioterapia, explica Cristina Kurachi, professora do Instituto de Física. Como é necessária a luz para tratar os tumores, apenas aqueles em locais acessíveis podem ser submetidos à terapia fotodinâmica. No caso, o carcinoma basocelular, o câncer de pele não melanoma responsável por 70% desses tipos de tumor. Cânceres ósseos, linfomas e leucemia, por exemplo, não podem ser tratados. Mas a terapia é altamente eficaz em cânceres de boca, esôfago e mão, desde que a pigmentação não seja muito intensa e a luz possa alcançar as células doentes.
O medicamento é retido seletivamente nos tumores. Ativado pela luz, esse medicamento reage com o oxigênio da célula presente no tecido e se transforma em um veneno, o singleto. Altamente reativo, ele induz a morte celular. Nesse projeto, coordenado pelo professor titular Vanderlei Bagnato, vice-diretor do IFSC, a medicação é um creme, o ácido aminolevulínico, usado topicamente, que penetra na célula e facilita a formação da protoporfirina IX, que age como fotossensibilizador.
A grande vantagem é que se trata de uma medicação local, o que impede que seja distribuída sistemicamente pelo corpo, diz Kurachi. Assim, o paciente não precisa se esconder do sol por quatro semanas para evitar queimaduras, o que aconteceria caso o medicamento fosse injetado. O local do tratamento obviamente continua a precisar de precauções contra os raios solares.
Como evita a cirurgia, a terapia pode ser feita mesmo em pacientes que não podem ser submetidos a anestesia. E, como o equipamento é portátil e a terapia não exige a internação do paciente, pode ser instalado em ambulatórios.
A taxa de sucesso da terapia é bastante alta, em torno de 80% a 85%, segundo a professora, mas seu índice de eficácia será determinado quando todos os 100 centros estiverem a todo vapor. O treinamento dos encarregados pela terapia começou no segundo semestre deste ano. Até dezembro, 20 unidades devem estar instaladas. As outras entrarão em funcionamento em 2012.
Cada centro deve tratar cerca de 80 pacientes por um ano. No período, a equipe deve analisar os resultados e ver se são necessárias adaptações. A ideia é que, comprovada sua eficácia, e terapia possa ser adotada pelo governo federal.
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