domingo, 11 de dezembro de 2011

Mais Um Endereço Para A Elite Global

HOTELARIA
Valor Econômico
08 de Dezembro, 2011


Com as bolsas de valores muito voláteis e dúvidas sobre a economia, o incorporador nova-iorquino Gary Barnett escolheu um momento estranho para erguer o mais alto prédio de apartamentos de Manhattan, com um hotel cinco estrelas e coberturas que custarão quase US$ 100 milhões cada.
O projeto de US$ 1,4 bilhão, em frente à sala de espetáculos Carnegie Hall, já tem 50 andares construídos. Quando finalizado, em 2013, o prédio de 90 andares, batizado de One57, terá 300 metros de altura, com vista para o Central Park. Barnett convenceu dois dos mais abastados fundos de investimento de Abu Dhabi a financiar o projeto, enquanto sua própria empresa, a Extell Development Co., está colocando menos de 10% do capital total, de US$ 700 milhões.
Barnett e seus sócios fazem parte de um pequeno grupo de incorporadores que está tomando grandes empréstimos e apostando em uma clientela muito seletiva: a elite global que paira acima dos males da economia.
Embora o colapso do mercado imobiliário residencial nos Estados Unidos tenha sido emblemático na crise econômica, o topo dos mercados residenciais em Nova York, Londres, Hong Kong e outras cidades seletas tem se mostrado resistente.
Segundo Barnett, o número de investidores bilionários e multimilionários no mundo nunca foi tão grande. Além dos russos e europeus do leste, "estamos vendo uma grande participação dos latino-americanos. Vemos uma grande participação dos chineses. Vemos o retorno dos compradores do Oriente Médio".
Graças a essa demanda, o mercado de alto luxo em algumas cidades está mais saudável que em qualquer outra parte no setor imobiliário.
Até novembro, compradores em Manhattan assinaram 529 contratos para apartamentos com preços de US$ 4 milhões ou mais, o maior volume desde 2007, de acordo com o "Olshan Luxury Report", uma publicação que acompanha as vendas de imóveis de alto padrão.
Em março, o compositor de música pop Igor Krutoy pagou o maior preço da história por um apartamento em Nova York, despejando US$ 48 milhões por 550 metros quadros no hotel Plaza, com uma ampla vista para o Central Park.
Em Londres, a tendência parece ser a mesma. A alta de preços no acumulado do ano para todos os apartamentos de Londres estava em menos de 14%, mas era de 24% para residências de mais de 10 milhões de libras (US$ 15,6 milhões), segundo a corretora Savills.
Depois de um tropeço inicial, as vendas no edifício One Hyde Park têm sido tão fortes que o empreendedor já quitou o empréstimo de 1,15 bilhão de libras que tomou para a construção. Mais de 60 das 80 unidades do prédio já foram vendidas, e muitos dos compradores são do Oriente Médio, da Europa e da Ásia.
A expansão de uma classe afluente nos países em desenvolvimento está liderando boa parte dessa demanda. A China tem 5.400 pessoas com patrimônio de pelo menos US$ 50 milhões, o que a coloca à frente de qualquer outro país fora os EUA, de acordo com o relatório global de riqueza do Credit Suisse. Rússia, Brasil e Índia, cada, têm mais de 1.500 desses indivíduos de altíssimo patrimônio líquido.
Além de oferecerem status, os apartamentos de luxo são vistos como uma alternativa para a preservação do capital quando o mercado financeiro oferece baixo retorno ou quando existe preocupação com a estabilidade do governo, como é o caso do Oriente Médio. Em quase todas as crises financeiras, os imóveis de luxo são mais capazes de manter valor que o resto do mercado.
Ainda assim, a aposta de Barnett tem muito risco. Um mergulho da economia americana ou o aprofundamento da crise de dívida na Europa esmagaria o mercado financeiro, reduzindo o ranking dos ricos. As empresas de Wall Street já começaram a cortar milhares de postos de trabalho.
Outros projetos de prédios de apartamentos de Nova York voltados para a camada mais alta da pirâmide afundaram por causa de crises econômicas. No início dos anos 90, o incorporador Bruce Eichner devolveu para os credores uma torre de 73 andares recheada de serviços e que tinha como público-alvo os compradores internacionais. O prédio ficava a apenas uma quadra de onde está o projeto de Barnett.
"Todos são afetados pela recessão", diz Barnett. "Se a bolsa cai, isso vai afetar o meu negócio. Se houver uma desvalorização de 20%, o bilionário não vai querer gastar US$ 20 milhões."
A Extell e seus sócios poderiam acabar com um edifício cheio de apartamentos vazios e uma receita limitada para pagar gordos empréstimos.
Muito desse problema ficaria na conta dos fundos de Abu Dhabi que já puseram cerca de US$ 650 milhões no projeto. A Extell pôs US$ 50 milhões, embora possa ficar com uma fatia maior dos lucros se as vendas forem bem. Os sócios de Abu Dhabi também prometeram assumir a dívida se as metas de venda não forem atingidas.
Desenhado pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc, o One57 tem 95 apartamentos à venda, por um preço total de US$ 2 bilhões, ou uma média de mais de US$ 21 milhões por unidade. Isso o colocaria na mesma posição do prédio número 15 na rua Central Park West, a poucos quarteirões de distância, como o edifício residencial mais caro já vendido.

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