Valor Econômico
01 de Dezembro, 2011
Até meados da década de 90, minha experiência com vinhos da Puglia, região conhecida como o salto da bota da Itália, se resumia aos elaborados por Cosimo Taurino, em particular o notável Patriglione, rótulo que permitiu vislumbrar a existência de potencial qualitativo na produção vinícola local, desde sempre conhecida como mera fornecedora de grosseiros vinhos de garrafão ou base para as fábricas de vermute, localizadas no norte do país. Contam com orgulho os "pugliesi" que, no passado, esses tintos intensos em cor e álcool também eram importados pelos franceses para dar estrutura a alguns de seus vinhos, supostamente inclusive bordeaux, quando a safra era fraca.
Por uma dessas infelizes coincidências, Taurino faleceu em 1999, ano em que praticamente se iniciava um sério e consistente movimento de renovação do cenário vitivinícola da Puglia. Os resultados começam a aparecer, conforme pude testemunhar na semana passada durante o Apuglia Wine Identity, evento promovido pelo Consorzio Puglia Best Wine que reuniu cerca de 50 jornalistas e críticos do setor de 22 nacionalidades. Divididos em quatro grupos, que percorreram distintos roteiros durante dois dias, todos se juntaram na histórica cidade de Trani para avaliar os vinhos elaborados pelas 21 vinícolas que formam Consorzio - Tenute Rasciatano, Torrevento, Spagnoletti Zeuli, Tenute Rubino, Girolamo, Giuliani, Polvanera, Cantine Paolo Leo, Cantine Due Palme, Azienda Candido, Agricole Vallone, Cantina Copertino, Schola Sermenti, Conti Zecca, Tenute Mater Domini, Azienda Monaci, Azienda Agricola Gianfranco Fino, Consorzio Produttori Vini di Manduria, Azienda Vinicola Milleuna, Feudi San Marzano e Rivera. Alguns desses produtores estiveram na última Expovinis, realizada em abril passado, em busca de importadores. Parte deles já está disponível no mercado brasileiro, enquanto outros estão a caminho.
Um elemento bem representativo das transformações ocorridas na Puglia foi a redução da área plantada, levada adiante, a bem da verdade, pela política de redução da produção total de vinhos proposta pela União Europeia aos seus países membros, que incentivava vinhateiros a arrancarem suas vinhas, indenizando quem o fizesse. Ainda assim, a província é a segunda maior produtora de vinhos da Itália, representando 17% do total do país, atrás do Veneto e à frente da Emilia Romagna (e seus malfadados lambruscos), Sicília e Toscana pela ordem, segundo dados do Istat (Istituto Nazionale di Statistica). Ainda há resquícios do passado - 50% da produção são dedicados a simplórios "vinos da távola", a mais baixa categoria dos vinhos italianos.
Não há só aspectos negativos nos tempos que se foram. Restaram também preciosidades, bem concretas, diga-se de passagem. São os velhos vinhedos - com 60 a 80 anos - em "alberello", sistema de condução antigo no qual as parreiras são plantadas como arbustos e que são responsáveis pelos melhores rótulos puglieses da atualidade. Foi, aliás, a partir da compra de parcelas dessas vinhas - hoje é praticamente impossível encontrar algum vinhateiro disposto a vender - que várias vinícolas foram criadas na última década, todas apostando em qualidade. Investidores locais e de fora, assim como grandes grupos italianos, exemplo do Antinori - montou a Tormaresca (importado pela Winebrands,www.winebrands.com.br) - e do GIV, Gruppo Italiano Vini, o maior conglomerado vinícola italiano, que se associou ao Castello Monaci e se instalou na Puglia, fortalecendo o renascimento da vitivinicultura da região.
O grosso da produção de vinhos da Puglia se concentra no centro e sul da província, ainda que a parte norte, que tem a cidade de Foggia com referência, também esteja em ascensão, com a moldagem de uma casta antiga, a nero di troia, até pouco tempo atrás desprestigiada por proporcionar tintos rústicos, com taninos agressivos. Era, por isso, mais utilizada para blends. Novos exemplares dessa variedade, "in purezza", estão surgindo com destaque, em especial na zona central, caso do Castel del Monte Vigna Pedale Riserva 2008, da Torrevento, provado nestes dias.
Duas castas, ainda assim, sobressaem e recebem mais atenção dos produtores. Uma é bastante conhecida dos brasileiros e tem lugar quase certo na maioria das cartas de vinhos dos nossos restaurantes, a primitivo, também conhecida como zinfandel nos Estados Unidos - exames de DNA provaram serem idênticas e derivam da crljenak kastelanski, casta nativa da Dalmácia. Resulta em tintos que apresentam fruta exuberante, boa acidez e poucos taninos, atributos que permitem consumo no curto/médio prazo. Para não se sugestionar, o consumidor deve se abster de olhar a graduação alcoólica, normalmente elevada - insisto sempre que o importante não é saber quantos graus tem de álcool; se ele estiver bem integrado, em equilíbrio no conjunto, pouco se nota. Os melhores vêm das DOCs Primitivo di Manduria e Gioia del Colle, esta mais próxima da cidade de Bari, e a IGT Primitivo di Salento.
Com características um tanto distintas está a negroamaro, que enseja vinhos mais complexos e tânicos, exigindo um pouco de paciência - alguns anos - para ser consumido. É, a propósito, a variedade que dá origem ao citado Patriglione (em algumas safras tem a companhia da malvasia nera, em porcentagens que nunca ultrapassam 15%). Nessa nova fase, os produtores locais estão experimentando outras uvas, algumas internacionais - a não ser a syrah, que pode dar algo positivo, outras, como cabernet sauvignon, não me seduziram - e outras italianas. Entre estas, em especial, a aglianico, originária da Campânia.
Pode parecer estranho, mas, apesar de se caracterizar por produzir tintos robustos e alcoólicos, uma das especialidades da Puglia são seus vinhos rosados, considerados, ao lado do Cerasuolo d'Abruzzo, os melhores da Itália.
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