terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cliente Número 1 Torna-se Amiga Dos Vendedores

SHOPPING CENTER
Valor Econômico
29 de Novembro, 2011

Ana Paula Paiva/Valor/Ana Paula Paiva/ValorMaria Luiza Guião: show de inauguração com Chico Buarque e Nara Leão
O primeiro shopping a gente nunca esquece. A paulista Maria Luiza Guião Bastos, cliente número 1 do Shopping Iguatemi, com o qual mantém uma relação de 45 anos, que o diga. "Até hoje é um lugar mágico."
Na manhã nublada da segunda-feira, 28 de novembro de 1966, a assistente social, então com 26 anos, acordou mais cedo do que de costume. Antes de seguir para a Estação da Luz e pegar o trem que a levaria ao trabalho, na fábrica da Rhodia, em Santo André, queria conhecer a nova atração da cidade.
Arrumou-se com esmero, pegou um táxi na porta de casa, na Vila Buarque, reduto da boemia paulistana nos anos 60, e às 7h30 já estava no Shopping Iguatemi. Enfrentou alguns metros de calçada enlameada por causa das obras na rua - que antes da abertura da Avenida Brigadeiro Faria Lima se chamava Iguatemi - e da chuva da noite anterior. Até que as portas se abrissem, às 8h, resistiu bravamente à espera solitária.
"Fui a primeirona", conta. "Eu era muito curiosa, solteira, tinha um bom salário na Rhodia e gostava de gastar e de presentear os outros. Lembro das minhas emoções. Tinha uma loja chamada Farioli, onde eu nunca podia comprar, porque era caríssima, e a Via Láctea. Era tudo belíssimo. Não lembro o que comprei, mas devo ter dado muitos presentes aos colegas de fábrica."
Maria Luiza passeou pelos corredores e se encantou com o que chama de minishopping - uma ala de produtos finos no primeiro andar. Foi lá que ganhou um relógio, que funciona até hoje, como cliente número 1. Só foi embora no começo da tarde, antes do show de inauguração com Chico Buarque, Nara Leão, Eliana Pitman e Chico Anysio.
"Eles queriam fazer revolução pela música, e eu já fazia a minha revolução na fábrica", diz Maria Luiza, que nos anos 70 chegaria a integrar o grupo guerrilheiro Ação Popular (AP) e ficar quase três meses presa, acusada de comunista.
Quase meio século depois, Maria Luiza ainda vai regularmente ao shopping. Moradora agora do bairro do Itaim Bibi, que não fica longe dali, ela costuma ir até lá para apostar na megasena, pagar as contas no banco, almoçar no Almanara, como fazia quando o restaurante ficava na 25 de Março, comprar balas na Brunella e tomar sorvete diet na Ofner.
"Lá me sinto segura para tirar dinheiro e jogar na loteria", diz Maria Luiza. "Gosto também do Vila Olímpia, mas nos outros shoppings o atendimento é meio robótico. No Iguatemi faço festa e levo balas de presente para meus amigos vendedores."
Maria Luiza já está na terceira geração de vendedores do Iguatemi e mantém com alguns deles uma relação de cumplicidade. Dia desses, quando o filho confiscou seu cartão de crédito por causa dos gastos excessivos, ela não se fez de rogada: pediu emprestado R$ 50 a uma amiga, balconista de uma das lojas de perfume, para pagar a entrada do cinema. (P.V.)

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