segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"Eu Não Vou Entregar O Meu Negócio", Diz Maksoud

HOTELARIA
Valor Econômico
23 de Novembro, 2011


Aos 82 anos, o empresário Henry Maksoud gosta de mostrar que continua no comando de seus negócios, embora responda a maior parte das perguntas com um singelo "não me lembro". Amanhã, o Maksoud Plaza, um dos mais tradicionais hotéis de alto padrão da cidade de São Paulo, pode ir a leilão para pagar dívidas trabalhistas calculadas em R$ 14 milhões. Ontem à noite, os advogados do hotel entraram com um mandado de segurança contra o leilão.
Conhecido por seu temperamento polêmico, o empresário não tem papas na língua. Diz que a Justiça do Trabalho é um retrocesso no ambiente empresarial brasileiro e compara "advogados de porta de cadeia" com "advogados de porta de sindicato". E enfatiza: "Eu não vou entregar o meu negócio".
Depois de muita insistência, Henry Maksoud dá alguns telefonemas e responde que o Plaza deve faturar R$ 35 milhões neste ano, o mesmo que no ano passado. A taxa de ocupação do hotel estaria em 60% durante a semana, abaixo da média da capital paulista, de 70%, e em 40% nos fins de semana, segundo Henry Maksoud Neto, que é diretor de operações do hotel há dez anos. Ele está ao lado do avô ao longo da entrevista ao Valor, mas esta é uma das poucas chances que tem de falar.
"Se chegar a ter leilão, ninguém vai dar lance. O dinheiro vai ficar parado lá", diz o empresário Henry Maksoud
"Há 32 anos dizem que o Maksoud Plaza vai fechar na semana que vem", diz Henry Maksoud, acrescentando que o prédio vale mais do que os R$ 140 milhões avaliados por peritos do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo. "Só as obras de arte valem mais do que isso."
A juíza Ana Carolina Nogueira, que cuida do caso, diz que o prédio vai à leilão para quitar dívidas que somam quase R$ 14 milhões, e que nada que está dentro do imóvel será leiloado. O empresário diz que pagou uma parte da dívida. Ela afirma que foram apenas R$ 320 mil e que ainda falta muito a ser quitado.
Henry Maksoud chama os processos de "ação caderneta de poupança". "Uma das pestes que existem neste país é a justiça trabalhista", diz. "Se existem ações trabalhistas, é porque não as consideramos válidas e estamos disputando."
Para o empresário, "se houver leilão não vai ter comprador". Foi o que ocorreu em maio de 2008, quando houve uma primeira tentativa de leiloar hotel, mas sem sucesso. Na época, conta uma fonte que acompanhou o processo, havia vários interessados, mas ninguém apresentou proposta.
Na leilão, o imóvel foi avaliado em cerca de R$ 95 milhões, sendo que o lance mínimo era de R$ 47,5 milhões. Apesar do valor considerado baixo para a boa localização (a uma quadra da avenida Paulista) e infraestrutura do prédio, não havia segurança jurídica para o potencial comprador. Isso porque o depósito do valor não garantia a aquisição, ainda mais porque o dono do hotel poderia recorrer.
"Uma das pestes que existem neste país é a justiça trabalhista", diz Maksoud, dono do hotel fundado em 1979
De acordo com essa fonte, atualmente o prédio do hotel cinco estrelas vale até R$ 150 milhões. Mas necessita de reformas avaliadas em, ao menos, R$ 100 milhões.
O patriarca diz que está investindo (não revela quanto) em melhorias. Conta que no ano passado trocou o carpete por piso de madeira nos quartos e que neste ano substituiu os televisores antigos por aparelhos modernos de tela plana. O Maksoud Plaza tem 416 apartamentos.
Mas as dívidas trabalhistas do hotel não são os únicos problemas de Henry Maksoud. A Hidroservice - fundada por ele em 1958 e que durante décadas fez trabalhos de consultoria e engenharia para grandes projetos, como aeroportos e a usina de Itaipu - não foi adiante. Chegou a ter 5 mil funcionários e a ocupar o imóvel onde é hoje a Uniban na Vila Mariana, conta o empresário. Agora, a Hidroservice é uma sala. O hotel cinco estrelas - inaugurado em 1979 e que tem 45 mil m² de área construída e 300 funcionários - é o seu maior bem imobiliário.
Na década de 1990, a Hidroservice começou a enfrentar problemas trabalhistas. "Parei de aceitar qualquer coisa [serviços] para a Hidroservice", diz Maksoud, sem dar maiores detalhes sobre o encolhimento do negócio. Os problemas financeiros se agravaram e os salários de alguns funcionários começaram a atrasar. "Houve em algum tempo passado algum atraso [de pagamento], por algum motivo. Hoje não tem atraso nenhum. Há épocas que você tem, qualquer empresa pode ter."
Em Manaus, deputados estaduais do Amazonas buscam uma maneira de pôr fim à novela da construção de um resort cinco estrelas que começou a ser construído pelo empresário há mais de dez anos. O empreendimento teria recebido incentivos fiscais, mas apenas um esqueleto do prédio foi construído até hoje. O Ministério Público do Amazonas confirma que o Maksoud Plaza Hotel Manaus faz parte da lista de obras inacabadas da antiga Sudam, e que está acompanhando o caso.
No almoço em que recebeu a reportagem para falar sobre o leilão, Henry Maksoud disse várias vezes que não se lembrava de episódios polêmicos como este: "Não lembro de ter recebido dinheiro do governo [para a obra de Manaus]".
Os problemas da empresa se tornaram notáveis por acompanharem as histórias do clã Maksoud que vieram a público, com brigas familiares e processos. Henry Maksoud chegou a cumprir prisão domiciliar dentro do hotel por não pagar pensão alimentícia à ex-mulher. (Com Alberto Komatsu)

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