domingo, 20 de novembro de 2011

Uma "Taberna" Japonesa Para Chamar De Sua

RESTAURANTES
Valor Econômico
18 de Novembro, 2011


Izakaya (pronuncia-se izakaiá) é o conceito da hora na gastronomia japonesa em São Paulo. Bar de ambiente descontraído, com aperitivos e pratos para compartilhar, os izakayas são inspirados nas tabernas japonesas de mesmo nome, que fervem no happy hour. No Japão, costumam ser frequentados por quem sai do trabalho e resolve dar um tempo para petiscar e tomar saquê e shochu (destilado feito de arroz, batata e outros cereais) enquanto espera o rush passar e a lotação dos trens acalmar.
A moda ainda não chegou ao Rio de Janeiro. Mas, em São Paulo, o estilo antes confinado à comunidade japonesa da Liberdade finalmente conquistou os brasileiros. Há casas novas, comandadas por chefs de prestígio, e uma em projeto, que abrirá em junho de 2012, no Shopping JK Iguatemi - essa envolve a dupla do Kinoshita: o empresário Marcelo Fernandes e o chef Tsuyoshi Murakami.
Outra novidade é a abertura neste mês do Momotaro, na Vila Nova Conceição, que marca a volta à ativa do paraense Adriano Kanashiro e é um restaurante "com espírito de izakaya". Ele explica: "Como o ambiente - o mobiliário e a decoração - é mais sofisticado, estou fugindo um pouco do izakaya, mas, na comida, minha proposta é trabalhar esse espírito, de compartilhar. Estou fazendo um pot pourri de todas as minhas degustações destes anos todos, e vou transformar esses pratos em porções maiores".
Para ele, os izakayas são uma tendência que veio pra ficar e que vai gerar vários filhos pequenos. "Assim como teve a onda dos bistrôs, agora tá vindo uma modinha de izakayas. Na Liberdade, eles sempre existiram, mas não eram frequentados por brasileiros", diz.
Agora são. Prova é o Ban, inaugurado há pouco no bairro, restaurante e izakaya do chef Massanobu Haraguchi, que fez seu nome no Miyabi. Com a ajuda do sobrinho, que traduz sua fala, Haraguchi explica que queria uma casa simples, que oferecesse teishoku (almoço executivo) e pratos leves a partir do início da noite. Haraguchi, que veio para o Brasil para trabalhar no velho Suntory, conta que já fazia esses pratos nos últimos tempos, mas não usava a palavra izakaya. "Agora as pessoas conhecem mais a comida oriental e esse modelo está pegando."
A mulher de Haraguchi, Margarida, comanda o izakaya de maior sucesso na Liberdade, o Issa, que completa dois anos agora. Ali, os pratos são divididos entre petiscos, assados, fritos, macarrão e saídas. Há clássicos como shitake na manteiga, gyoza, atum fatiado e ovos com nirá (cebolinha japonesa) em pequenas porções. E também tempurá, anchova assada e 14 tipos de macarrão. Os mais pedidos são o bolinho de polvo e um tipo de pizza que mistura legumes, carne de porco, camarão, maionese e flocos de atum seco.
Os clientes começam a chegar por volta das 19 h e conversam com ela em japonês. Só mais tarde os brasileiros aparecem e hoje respondem por 60% da frequência. O Issa tem uma área pequena, delimitada entre o balcão e um corredor estreito, onde há três salinhas com tatame. No passado, no mesmo endereço também funcionava um izakaya, que Margarida soube que estava à venda enquanto se divertia num karaokê. "Comprei sem saber nada. Nem sabia o que era um izakaya. Fui fazendo minhas comidinhas, os clientes gostaram e graças aos blogueiros e tuiteiros a casa está sempre cheia", conta. O marido, Massanobu Haraguchi, não dá palpite em seu cardápio, assegura. Até porque, antes de ir para lá, Margarida teve durante 20 anos um restaurante estilo buffet, no Jaguaré, perto do Ceasa, em São Paulo.
No ano passado, a sansei Ana Toshimi Kanamura foi a primeira a levar o conceito de izakaya para fora da Liberdade, quando abriu a Itigo Sake House. "Eu vim para os Jardins porque queria um serviço mais rápido e um padrão que não há na Liberdade. A gente tenta ser mais amigável, não que os japoneses não sejam, mas há um jeito peculiar lá. Nós somos mais brasileiros."
Formada em administração pela Fundação Getúlio Vargas, ela defendeu tese sobre saquê e, depois, se especializou em gastronomia para melhor poder combinar as duas coisas. A ideia inicial da Itigo era realmente ser um bar de saquês com petiscos para acompanhar. Mas os clientes começaram a pedir sushi e sashimi, a jantar em vez de beber, e o conceito foi se modificando.
Com clima mais contemporâneo do que oriental, a Itigo tem 30 rótulos e oferece régua de degustação - o que os americanos chamam de sake flight. Há dois tipos: a básica, com três doses de 50 ml da mesma categoria, e a top, com um básico, um premium e um superpremium. "Vem gente para conhecer e tomar saquê puro pela primeira vez, então, a degustação tem caráter educativo, para as pessoas verem que saquê não é tudo igual."
Kappo é o nome que terá o izakaya da dupla do Kinoshita, no shopping JK. Além de se aventurar num novo conceito, será a primeira casa de Marcelo Fernandes num shopping. "No Japão há vários tipos de izakayas, desde o botequinho até o mais bem montado e lá é bem equilibrado entre comida e bebida", compara Murakami, que não vê o lugar como destino de quem vai apenas para beber. "Será um bar-restaurante de comida japonesa gourmet, só que mais rápida."
Muita coisa ainda não está decida no projeto, que terá saquês especiais e ocupará um espaço de 400 metros quadrados, ao lado do Ráscal. "Vamos fazer uma casa de excelência, ainda mais porque estaremos ao lado de um profissional como o Roberto (Bielawski, do Ráscal). Vou bater lá e dizer pra ele: 'Robertão, se tiver muita fila aí no seu, manda pro nosso!'", diverte-se Murakami.

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