Valor Econômico
23 de Novembro, 2011
A Roche Holding está recorrendo a um novo método radical para tentar reverter o declínio nas vendas deu remédio contra o câncer Avastin, ainda um dos mais vendidos do laboratório farmacêutico. A empresa suíça se oferece a devolver, a hospitais e empresas de seguro-saúde na Alemanha, o dinheiro do medicamento, que custa entre € 3 mil e € 6 mil por mês, dependendo do tipo de câncer sendo tratado, caso seu uso seja insatisfatório. O Avastin tem uso permitido para tumores de cólon, rim, cérebro e pulmão.
A Roche, cuja sede fica na Basileia, fará a devolução do dinheiro se os pacientes que usarem o Avastin como tratamento principal tiverem uma piora nos tumores ao longo de três a sete meses, segundo os termos de um contrato preliminar ao qual a "Bloomberg" teve acesso. Daniel Grotzky, porta-voz do laboratório farmacêutico confirmou a informação. A ideia do novo contrato foi estimulada por uma nova lei aprovada na Alemanha em 2010, que dá às empresas de seguro-saúde o direito de negociar o preço de novos remédios com os produtores.
O pagamento condicionado ao desempenho é a última moda na assistência médica. Da Europa aos Estados Unidos, há uma investida para relacionar os pagamentos de seguros-saúde à evolução dos pacientes. Acordos como o que a Roche oferece na Alemanha, no entanto, são uma novidade na indústria farmacêutica, de acordo com o boletim informativo setorial alemão "Arznei-Telegramm", que divulgou o novo contrato da Roche em primeira mão.
O analista Birgit Kulhoff, do banco Rahn & Bodmer, em Zurique, acredita que outras farmacêuticas poderão seguir o mesmo caminho. "Condicionar o remédio ao desempenho é interessante, é definitivamente novo", diz Kulhoff. "Esperaria acordos desse tipo com mais frequência."
As vendas farmacêuticas da Roche na Alemanha caíram 7%, para US$ 1,3 bilhão, nos primeiros nove meses do ano, com a entrada em vigor dos controles de preço governamentais. As vendas mundiais do Avastin caíram 10% no terceiro trimestre, para US$ 1,42 bilhão. A empresa não separa os resultados de acordo com as vendas de remédios específicos por país.
A busca por economias nos custos médicos aumenta a pressão sobre os produtores de terapias muito caras. Eles são pressionados a identificar "marcadores genéticos" mostrando com que droga os pacientes se beneficiam mais. A Roche desenvolveu testes de diagnósticos para o tratamento de câncer de seio Herceptin e para o Zelboraf, contra melanomas, mas até agora não conseguiu um teste similar para o Avastin.
Paralelamente, a efetividade do remédio no combate ao câncer de seio foi contestada. Uma comissão da Agência de Remédios e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) dos EUA divulgou, em junho, que o Avastin não deveria ser receitado a mulheres com a doença, porque os estudos não mostraram que funcione bem o suficiente para compensar riscos de perfurações gastrointestinais, complicações nas cirurgias e hemorragias fatais. A comissária da FDA, Margaret Hamburg, ainda não divulgou uma decisão final.
Na Alemanha, a versão preliminar do contrato também oferece a possibilidade de devolver o custo do medicamento caso os pacientes precisem, em um ano, de mais de 10 gramas de Avastin, que é o equivalente a cerca de sete meses da terapia para os pacientes com câncer de seio, rim e ovário. Uma cláusula similar também está em vigor em outros países, de acordo com o porta-voz da Roche. "Temos consciência das pressões de custo sobre o sistema de assistência médica", diz Grotzky. "[Possibilitar] acesso a nossos medicamentos é importante para nós."
Acordos desse tipo podem ser atrativos para as empresas de seguro-saúde, mas Arthur L. Caplan, diretor do Centro de Bioética da University of Pennsylvania, os considera um mau remédio. "O que precisamos é de uma assistência médica sólida, de evidências comprovadas sobre o que funciona, por meio de testes clínicos", diz. "Não de alguém saindo por aí com um programa de descontos, uma garantia ou um cupom", completa. (Tradução de Sabino Ahumada)
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